A sede da Giral, em Glória do Goitá, se transformou em um espaço de reflexão e defesa dos direitos da infância na realização da 8ª edição do Seminário Educar pra Proteger. Com o tema “Proteger a infância é construir um futuro”, o encontro reuniu crianças, adolescentes, famílias, educadores, representantes do poder público e da rede de proteção para discutir estratégias de prevenção e enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes, reforçando o papel da educação e da participação social na construção uma sociedade mais segura.
O evento retoma uma história iniciada em 2019, quando o projeto Educar pra Proteger capacitou estudantes e professores de escolas públicas rurais de Glória do Goitá para o enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes. Um dos frutos mais marcantes daquela experiência foi a criação de fábulas escritas por estudantes e educadores para abordar a temática de forma lúdica e acessível. Anos depois, essas histórias ganharam novos significados ao serem retomadas junto às crianças e adolescentes que atualmente participam dos projetos da Giral.
A programação teve início com uma mesa reunindo representantes da rede de proteção e da comunidade. Participaram do momento Gilson Leão, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Nazaré Martins, secretária de Políticas Sociais de Glória do Goitá, Inaldo Souza, coordenador do Conselho Tutelar, Márcia Lima, pedagoga e mãe de um estudante da Giral e Ana Maria, diretora adjunta da Escola Municipal Santa Rita e também mãe de uma participante das oficinas.
Durante a abertura, os convidados refletiram sobre os diferentes papéis desempenhados por famílias, escolas, organizações sociais e órgãos públicos na proteção de crianças e adolescentes.
Fundador da Giral, Everaldo Costa destacou que o enfrentamento à violência exige compromisso permanente e ação coletiva. “A Giral discute essa temática à 18 anos, muita coisa mudou, mas ainda precisamos avançar muito”. Em seguida, reforçou a necessidade de transformar discursos em atitudes concretas. “Nós precisamos saber como ter postura pra enfrentar isso. Que o nosso discurso se converta em prática. O silêncio também é uma violência”.
A importância da denúncia como instrumento de proteção também foi ressaltada por Inaldo Souza. “A denúncia é a única forma de assegurar, preservar e garantir o direito e a segurança das nossas crianças e adolescentes. Quando nos calamos, somos tão agressores quanto aqueles que cometeram o crime.” Para ele, o compromisso com a infância passa pelo uso da própria voz. “A gente só garante a segurança desses jovens se a gente falar, denunciar”.
Após a mesa de abertura, os participantes acompanharam a dramatização de uma das fábulas produzidas pelo projeto. Em seguida, em grupos, os participantes ocuparam diferentes espaços da Giral para ouvir novas contações de histórias inspiradas nas demais narrativas criadas em 2019. Cada apresentação serviu de ponto de partida para conversas sobre proteção, cuidado e direitos. Ao final das atividades, os grupos construíram coletivamente palavras de ordem e gritos de mobilização que foram compartilhados em seguida em um grande momento de integração.
Toda a metodologia do seminário foi pensada para favorecer o diálogo e a participação ativa das crianças e adolescentes, colocando-os no centro das discussões. Mais que ouvintes, eles foram convidados a falar, questionar, refletir e construir posicionamentos sobre os temas apresentados.
Para Márcia Lima, pedagoga e mãe de um dos estudantes da instituição, iniciativas como essa cumprem um papel fundamental na formação das novas gerações. “É uma temática bem importante que a Giral propicia às crianças e adolescentes. É fundamental que seja falado, que seja construído, que seja ensinado. Às vezes a Giral é o único espaço onde esse tema é abordado. Às vezes em casa não se fala, então isso faz com que as crianças de fato aprendam, se conscientizem e aprendam a se resguardar, a se cuidar.”
Um dos momentos mais emocionantes do encontro foi o reconhecimento das professoras e educadoras autoras das fábulas. Convidadas ao palco, elas compartilharam a alegria de ver suas histórias continuarem cumprindo sua missão educativa tantos anos depois de terem sido escritas.
Autora da fábula “A Coelhinha Yara e Seus Medos Escondidos”, Elisângela Luz destacou a força que os textos adquiriram ao longo do tempo. “Em 2019 eu nem imaginava que eu estaria aqui, de fato, essas fábulas cumpriram seu objetivo”. Já a professora Josélia Juvina, autora de “A Filhote Xodó”, relembrou os impactos da iniciativa no ambiente escolar. “Através desse projeto, a gente acabou levando esse tema pras escolas. E isso facilitou muito trabalhar isso na nossa prática na sala de aula”.
O encerramento aconteceu em uma grande ciranda, reunindo crianças, adolescentes, jovens e adultos em uma celebração coletiva marcada pelo afeto, pela convivência e pelo sentimento de pertencimento.
Antes da despedida, as famílias receberam o Diagnóstico Situacional das Crianças e Adolescentes de Glória do Goitá, estudo elaborado pela Giral em parceria com o Conselho Tutelar e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. O documento apresenta um panorama das principais violações enfrentadas pela infância e adolescência no município, como negligência, violência sexual e trabalho infantil, além de apontar caminhos para o fortalecimento das políticas públicas e das redes de proteção.
Ao revisitar histórias construídas anos atrás e transformá-las novamente em instrumentos de diálogo, em sua 8ª edição, o Seminário Educar pra Proteger reafirma que proteger a infância é uma responsabilidade compartilhada. O encontro fortalece uma cultura de cuidado, escuta e mobilização social, construindo caminhos para que crianças e adolescentes cresçam cercados de direitos, oportunidades e esperança.
Ação realizada pela Giral conta com o patrocínio da BB Seguros e apoio do Programa Amigo de Valor e ActionAid Brasil.










