Cirleide do Nascimento, mais conhecida como Cida Lopes, é uma mulher mamulengueira, mãe de três filhas, que herdou do pai, o mestre Zé Lopes, o ofício mágico do teatro de mamulengo. Foi na Casa da Cultura Popular – CASACUPO que Cida recebeu os adolescentes do Grupo Paleta Coletiva para um encontro cheio de histórias e memórias.
Até os sete anos de idade, Cida viveu na casa da avó. Quando voltou a morar com o pai, se encantou de vez com os bonecos. Foi ali que descobriu todo o encantamento por trás desse folguedo popular. “Muitas vezes eu abria o baú, tentando flagrar os bonecos se mexendo… Eles não são só bonecos. Pra mim, são como se fossem pessoas”, conta Cida. Ela complementa: “Também era assim que meu pai via os bonecos… Ele acreditava que era gente de verdade.”
Muitos acreditam que o mamulengo veio de Portugal, mas, segundo Cida, as apresentações de lá são bem diferentes das nossas. Aqui no Brasil, o mamulengo surgiu como uma forma de catequização, ainda no primeiro século da invasão europeia. Em Olinda, os negros escravizados, inspirados nas apresentações de presépios, começaram a criar suas próprias versões dentro das senzalas. Foi dali que nasceu o termo. Primeiro, “mão molenga”, depois “mão molengo”, até virar “mamulengo”.
“Um pedaço de madeira e um trapo de saco viravam um personagem que ajudava a divertir e contar as histórias do povo, de forma descontraída”, explica.
Glória do Goitá, hoje reconhecida como a Capital Estadual do Mamulengo, teve grande influência nessa história. Segundo Cida, as primeiras apresentações de que seu pai se lembrava vieram com o mestre Luiz da Serra, que saía de Vitória de Santo Antão para se apresentar em Glória. “Naquela época, mulheres e crianças não podiam participar da brincadeira. No máximo, assistiam de longe ou ajudavam a preparar as coisas nos bastidores. Se uma criança tentava entrar na barraca, os adultos usavam até da força pra impedir”, lembra.
Mas Zé Lopes foi ousado desde cedo. Certa vez, depois de uma apresentação de Luiz da Serra, um dos bonecos quebrou. Zé Lopes, com apenas 10 anos, se ofereceu para consertá-lo, mas foi repreendido pelo mestre. Mesmo assim, não desistiu: consertou o boneco e fez o seu próprio. Logo depois, se aproximou de Zé de Vina, mais velho e também apaixonado pela arte, e juntos fundaram o primeiro grupo de mamulengo da cidade.
Durante muito tempo, o mamulengo foi visto com preconceito, associado a “gente desocupada, vagabundo, marginalizado”. Zé Lopes fez questão de quebrar esse estigma com o próprio exemplo de vida. Nunca se envolveu em situações que pudessem reforçar essa visão distorcida sobre a brincadeira.
Foi também o primeiro mamulengueiro a sair do país e a dar aula em universidade, levando adiante o saber popular com dignidade e orgulho, e apresentando o Mamulengo que ele chamou de “Teatro do Riso” para o mundo.
Na época de Zé Lopes, os espetáculos podiam contar com até 120 personagens, começando às seis da noite e indo até às cinco da manhã do dia seguinte. Hoje, com a cultura de massa ganhando mais espaço, tudo ficou mais rápido e limitado: “Meu mamulengo hoje tem cerca de 40 personagens, e nem todos se apresentam. Depende do tempo… e também se o personagem quer entrar em cena. Eu converso com eles, vejo se estão dispostos. O que pra alguns é só um pedaço de madeira, pra mim é um Sargento, um Simão, uma Quitéria…”
Cida tem uma conexão íntima com seus bonecos. “O lugar mais mágico que existe é dentro da barraca, junto deles. Lá não tem tristeza, nem depressão”, diz com brilho nos olhos. A construção dos personagens vem da convivência com o pai, da observação do povo e da criatividade dela: “O mamulengo era o jornal da cidade. Muitos personagens nasceram de pessoas reais. As histórias aconteciam dentro de uma fazenda, mas hoje a gente inclui personagens novos que vão surgindo com o tempo.”
Sobre o futuro, Cida tem um sonho: “Gostaria muito de voltar aos países por onde meu pai passou, nem que fosse só pra ver os bonecos dele expostos nos museus.” Enquanto isso, segue preparando as filhas para conhecerem tudo sobre essa cultura. Mas deixa claro que a escolha de seguir ou não o caminho do mamulengo será delas.
“Viver só de cultura ainda é difícil, mas no tempo do meu pai era bem pior. Muitas vezes, o chapéu passava no fim da apresentação pra juntar uns trocados, outras vezes se fazia a apresentação de graça.” Ainda assim, Cida não desanima: “É preciso valorizar o que é nosso. O mamulengo é uma cultura única, que só existe do jeito que é aqui. Se a gente não cuidar… pode se perder.”
A visita à CASACUPO faz parte da pesquisa do Grupo Paleta Coletiva, integrante do Projeto Educação e Vivências Inclusivas. Os jovens artistas estão preparando uma nova exposição sobre a cultura popular de Glória do Goitá, que vai abordar manifestações como o Cavalo Marinho, o Mamulengo e o Maracatu. A iniciativa, realizada pela Giral, conta com o apoio do Programa Amigo de Valor, do Santander.

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A sede da Giral, em Glória do Goitá, ficou pequena na tarde dessa quarta-feira(26). O Seminário Participação Cultural:









