Encontro com famílias marca início da turnê 2025 da Orquestra Meninas e Meninos da Alegria

No último sábado (10), a sede da Giral em Glória do Goitá se encheu de afeto e música. Com presença de mães, pais e responsáveis, a equipe do projeto Meninas e Meninos da Alegria em Movimento promoveu um encontro com as famílias das crianças e adolescentes que farão parte da turnê 2025 da Orquestra. O encontro foi um convite à escuta, ao acolhimento e à construção coletiva desse novo ciclo. Após as audições realizadas em abril, os músicos selecionados receberam oficialmente o fardamento da turnê — momento simbólico que marcou o início dessa nova etapa. Durante a reunião, a equipe apresentou detalhes sobre o novo espetáculo, como o tema, a proposta de repertório e as cidades que deverão receber a Orquestra. Também foram repassadas orientações sobre ensaios, avaliações e o acompanhamento pedagógico e musical das crianças. Mas o principal destaque do encontro foi a reflexão sobre o papel das famílias nesse processo de formação. Para a Giral, a família é essencial no desenvolvimento das crianças e adolescentes dentro e fora da música. Como apontou Jonatas Araújo, coordenador do projeto, esse percurso é construído a muitas mãos: “Eu gosto de dizer que é um tripé: os pais, os educandos e a instituição. O objetivo do dia de hoje foi justamente fazer essa integração, para que o processo se torne mais simples e com mais pertencimento”. A fala ecoa o que foi vivido no encontro. Muitos familiares reconheceram a importância da música na vida dos filhos — não apenas como expressão artística, mas como oportunidade de crescimento, descoberta e disciplina. “O que essas crianças vivenciam aqui é muito significativo”, afirmou Everaldo Costa, fundador da Giral. “Independente se vão seguir na música ou não, os aprendizados que estão tendo aqui vão acompanhá-los pelo resto da vida. A música nos dá esse ‘poder’ da presença, de estarmos perto dos nossos filhos. Valorizem isso!” O envolvimento das famílias já se reflete na trajetória dos educandos. Cláudia Victória, jovem violista, falou sobre o sentimento de voltar à Orquestra e a expectativa para o novo ciclo. “Estar na Orquestra de novo é um recomeço. Vamos conhecer pessoas novas, lugares novos, saber mais sobre a nossa cultura. Minha expectativa está muito alta. As músicas são novas, mais desafiadoras, mas a gente vai conseguir”, disse confiante. Sua mãe, Uterleide Oliveira, reforçou a importância do projeto não só para o desenvolvimento artístico, mas também pessoal e social. “Essa turnê é muito importante. Dá oportunidade de aprender, se desenvolver e conhecer novos espaços. Só tenho a agradecer à Giral por contribuir com o crescimento dessas crianças para um mundo melhor.” Durante o encontro, a equipe do projeto também anunciou uma novidade: os 25 músicos da Orquestra receberão uma bolsa de incentivo ao longo da turnê. A ideia é reforçar o compromisso dos jovens com a formação musical, reconhecer o esforço e valorizar o protagonismo de cada um nesse processo. Com o tema “Meninas e Meninos da Alegria Tocam o Nordeste”, a turnê 2025 trará um repertório inspirado na cultura popular nordestina, com textos do poeta Sérgio Ricardo, arranjos inéditos e novas cidades no roteiro. Assim como na primeira turnê, realizada em 2024, a proposta é interiorizar o acesso à música e à cultura, promovendo apresentações gratuitas em municípios com pouco ou nenhum contato com a música de concerto. Realizado pela Giral, o projeto conta com o patrocínio da BB Seguros, que assim como nós, acredita na potência da arte e da educação como caminhos de transformação social.
Educação e sustentabilidade: Giral promove formação com professores da rede Municipal de Feira Nova

Como levar para a sala de aula uma temática tão atual e urgente quanto a sustentabilidade? Como fazer com que os estudantes consigam relacionar esses conhecimentos ao seu cotidiano? E de que forma integrar educadores, escola e comunidade nesse processo? Essas foram algumas das questões que surgiram durante a formação realizada no último dia 5 de maio, na sede da Giral, em Glória do Goitá. Voltada a professores da rede municipal de Feira Nova, a atividade foi realizada em parceria com a Secretaria de Educação e a Prefeitura Municipal, reunindo educadores das áreas de Ciências, Geografia, História e Educação de Jovens e Adultos (EJA) para aprofundar reflexões sobre educação contextualizada e sustentabilidade. Conduzida por Agamenon Porfírio (jornalista e comunicador popular), Maria Isabela (engenheira agrônoma e coordenadora de projetos da Giral) e Everaldo Costa (jornalista e fundador da instituição), a formação foi estruturada em torno de um percurso que partia da educação como prática emancipatória até chegar às possibilidades concretas de trabalhar a sustentabilidade em sala de aula. Como guia nessa jornada, nosso patrono Paulo Freire. “A proposta da formação é integrar a discussão sobre educação e sustentabilidade, preparando professores para a realização de ações educativas inovadoras, com a participação ativa dos estudantes, considerando suas crenças e relações comunitárias”, destacou Everaldo Costa. Para ele, a experiência reafirma a importância da escuta e da construção conjunta entre educação formal e não formal: “Facilitar o momento, escutar os professores e pensar alternativas para uma educação transformadora é acreditar que juntos podemos deixar um mundo melhor para as futuras gerações”. Mais que um momento formativo, o encontro se desdobrou em um rico intercâmbio entre professores e equipe da Giral. “Foi desafiador, tanto pela complexidade do tema quanto pelo nível da turma”, compartilhou Maria Isabela. “É diferente trabalhar com professores e com educandos, mesmo sabendo que estamos todos aqui para ensinar e aprender. Mas acredito que o desafio foi cumprido. Falar sobre sustentabilidade é um dever nosso, enquanto instituição promotora de desenvolvimento humano e territorial. Atualmente, não tem como pensar em desenvolvimento – seja ele qual for – sem falar em sustentabilidade ambiental, social e econômica”. A formação dialogou com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU e apontou caminhos para que os educadores levem esses conteúdos de forma crítica e contextualizada às salas de aula. Para Daniel Henrique, professor de História da rede municipal de Feira Nova, o encontro foi significativo: “Foi de suma importância. Eu já tinha curiosidade de conhecer a Giral, e me surpreendi. Às vezes a gente pensa que esse tipo de trabalho só existe nas capitais, mas não. Aqui no interior a gente encontra esse tipo de trabalho. Aprendi bastante sobre como abordar esses temas com os alunos”. Yasmine Vitória, professora de História e Espanhol, também saiu tocada pela experiência. “Achei a formação muito enriquecedora. Trouxe informações muito pertinentes, e muitas vezes a gente acha que já sabe de algo, mas é só um conhecimento vago. Hoje a gente pôde se aprofundar”, afirmou. Um dos aprendizados que mais marcaram Yasmine foi sobre o papel transformador das oportunidades: “Aqui o Giral é um local realmente de mudança. A questão da oportunidade muda a vida das pessoas”. Entre práticas, reflexões e partilhas, a formação reafirmou o compromisso coletivo com uma educação que transforma e se transforma junto com o território. Uma educação pautada na escuta, que respeita e valoriza as experiências locais — e que, sobretudo, semeia esperança.
Resistência e Tradição no Cavalo Marinho do Mestre Zé de BibiPor Wemison Araújo – Historiador, Educador e Curador do Grupo Paleta Coletiva.

O Sítio Histórico do Cavalo Marinho, localizado no Sítio Malícia, zona rural de Glória do Goitá, abriga o primeiro museu dedicado ao Cavalo Marinho do Brasil. No vilarejo que ele mesmo construiu, José Evangelista de Carvalho — o mestre Zé de Bibi, patrimônio vivo de Pernambuco — preserva com carinho o único museu voltado ao Cavalo Marinho de bombo. Desde criança, Zé de Bibi sonhava em deixar sua marca na cultura popular. Mesmo quando muitos zombavam dizendo “Cavalo Marinho é brincadeira quente”, ele não se deixou abalar. Pelo contrário, reuniu amigos e fundou o Cavalo Marinho Boi Tira Teima — nome escolhido, como ele mesmo conta, para “tirar a teimosia de quem não acreditava nele”. Diferente de outros grupos da Mata Norte pernambucana, o Cavalo Marinho Boi Tira Teima traz os personagens Mateu e Catirina, mas não conta com o Bastião (irmão de Mateu). A trama começa quando o Capitão Marinho, um fazendeiro rico, decide dar uma festa, e Mateu — personagem negro, vindo das senzalas, estereotipado como um “doidinho” — entra em cena. Quem narra essas histórias é Michele, filha do mestre Zé, que hoje dá continuidade aos ensinamentos do pai. A apresentação se inicia com o Maguião (ou Mergulhão), uma dança de entrada com passos que lembram a capoeira. Os personagens se dividem em três categorias: animais (como boi e cavalo), humanos (como galantes e cara branca) e fantásticos (como Caboclo de Iorubá e “Parece, mas não é”). O Cavalo Marinho mantém sua força pela tradição oral, o que faz com que cada grupo tenha suas variações. Os diálogos surgem do improviso e buscam envolver o público. Como diz Zé de Bibi: “Antigamente a festa reunia muita gente, era a brincadeira que o povo tinha. Hoje, a gente apresenta e logo para, quando começam essas grandes bandas.” O brinquedo de Zé de Bibi reúne um impressionante número de personagens criados por ele — são cerca de 86 figuras! O banco dos músicos é composto por ganzá, bombo e rabeca (ou “Rebeca”), que embalam as toadas (músicas) e conduzem as loas (diálogos e poesias). Além de mestre do Cavalo Marinho, Zé de Bibi também atua no Maracatu e no Mamulengo. Nos últimos anos, suas filhas vêm assumindo muitos personagens dentro do folguedo, rompendo a tradição histórica de um brinquedo que, por muito tempo, foi exclusivamente masculino — até as baianas eram representadas por homens. De modo geral, essa brincadeira vinda das senzalas carrega a rotina e a memória de homens e mulheres dos campos de lavoura de subsistência e canaviais do interior de Pernambuco. A visita ao Sítio Histórico faz parte da pesquisa do Grupo Paleta Coletiva, do Projeto Educação e Vivências Inclusivas, que prepara uma nova exposição sobre a cultura popular de Glória do Goitá, abordando o Cavalo Marinho, o Mamulengo e o Maracatu. A iniciativa realizada pela Giral conta com o apoio do Programa Amigo de Valor, do Santander.





